Página Inicial
Escrever no livro de visitas Enviar um email
           Imprensa
           Obras
           Biografia
           O que é?
           Encontros
           A Volta
           A Casa
           A Imagem
           Imaginário
           As Flores
           O Legado
           Quiosque
           Links
 

Depoimento de Gerardo Mello Mourão

 

Um verdadeiro presente foi dado pelo poeta Gerardo Mello Mourão aos que estiveram assistindo o seu depoimento sobre Guignard, no 1º evento da série "Encontros com Guignard", realizado na ACIANF - Associação Comercial Industrial e Agrícola de Nova Friburgo - no dia 13 de setembro de 2002.

A seguir, a íntegra deste depoimento. Embora alguns trechos pouco tenham a ver com a figura de Guignard, resolvemos não excluí-los por se tratar de informações de grande importância histórica e cultural de nosso país.

 

 

Projeto ‘Guignard, filho de Nova Friburgo’
 
Módulo ‘Encontros com Guignard’
 
Primeiro depoimento da série: poeta Gerardo Mello Mourão
 

 

13 de setembro de 2002 – Boca Bendita da Associação Comercial de N. Friburgo

 

Cláudio Santos Verbicário – Presidente da Associação Comercial Industrial e Agrícola de Nova Friburgo (saudando o palestrante):

 

“É um prazer para nós, termos aqui em nossa cidade, o escritor, poeta Gerardo Mello Mourão, e também darmos início a essa série de depoimentos sobre a vida e a obra do grande pintor friburguense, Guignard.

Estamos aqui também com o cineasta e jornalista, Luiz Carlos Preste Filho; eu passo aqui, para o Luiz Carlos, para conduzir esse depoimento”.

 

Luiz Carlos Prestes Filho: “Boa noite a todos. A modalidade dos Encontros, que nós preparamos; ‘Encontros com Guignard’, é uma modalidade, na verdade, de uma conversa, de ouvir de brasileiros que tiveram a honra e a felicidade de conviver com Guignard.

Então, por isso mesmo, temos aqui hoje a presença do poeta Gerardo Mello Mourão. Ele vai trazer um pouco da experiência, da convivência dele com Guignard; ele está acompanhado da esposa dele, a Lea, que foi retratada por Guignard.

            Este momento é muito importante, porque o depoimento está sendo gravado em vídeo, o registro está sendo feito, tanto através de som e imagem, e é um trabalho muito mais de registro deste momento que estamos vivendo agora. Mas eu não posso deixar, aqui, de falar da presença de pessoas, sem as quais não poderíamos realizar este primeiro encontro.

Antes de mais nada, a Catherine [Beltrão] e o Júlio [Latini Stutz], que são representantes da Artenarede, que é a empresa que está dando toda cobertura na área de organização das informações, dentro do site, num trabalho que eles desenvolvem, valorizando a arte e as artes plásticas, no Brasil e no Mundo; a Catherine e o Júlio já colocaram no ar, um site. Neste momento, qualquer pessoa que entrar na Internet, através do Artenarede/Guignard, vai ter acesso, ao que foi feito nestes últimos meses para valorizar a figura do Guignard.

            Gostaria de citar a presença do escultor Orlando Brasil, que está já há alguns meses desenvolvendo um trabalho para poder dar forma à figura de Guignard, para que o Guignard ganhe uma escultura para ser afixada na sua cidade. Não poderia deixar de citar, aqui, mais dois companheiros da Associação Comercial de Nova Friburgo, que foram as pessoas também que fizeram toda a logística desse nosso encontro e fizeram todo trabalho de divulgação e de preparação e conseguiram recursos, para que esse registro fosse realizado, que é o Girlan e o Presidente da Associação Comercial, o Cláudio Verbicário, que tem sido um grande entusiasta do resgate da obra do Guignard.

Gerardo, poeta maior, emocionou várias vezes a platéia, com sua
 forma lírica e pungente de enumerar suas lembranças junto a
 Guignard: uma verdadeira aula de história, de simplicidade e de
 reverência à pintura. À mesa, Luiz Carlos Prestes Filho, Gerardo
 Mello Mourão e Cláudio Verbicário

Eu queria passar a palavra para o poeta Gerardo Mello Mourão, e gostaria de dizer aos presentes, se pudéssemos, baixar o som dos celulares ou desligar os celulares. Acho que seria adequado, para que pudéssemos ouvir tranqüilamente, mas eu também queria dizer aos presentes que, neste módulo do depoimento do Gerardo, o mais importante também são as perguntas; tirar dúvidas, conversar, esclarecer, aproveitando o máximo as informações que estão dentro da cabeça deste grande brasileiro, pessoa que tem... não somente é um poeta, mas tem uma vida, verdadeiramente, uma verdadeira vida de poeta, que é o Gerardo Mello Mourão. A ele eu passo a palavra”.

 

Gerardo: “Nobres amigos, muito boa noite!

Ilustres, pelo amor de Deus, isso não é uma conferência!

            É uma conversa. É uma conversa sobre Guignard, e acho muito autêntico e muito correto, que as pessoas da terra de Guignard, se lembrem de comemorar, já um pouco avançado até, seu centenário. Ele nasceu em 1896, mas o Centenário de Guignard se prolonga, atravessa os anos. E é uma maneira de cultivar e respeitar a memória nacional, que é a memória de cada um de nós; memória de nosso sentimento comum, quando se trata de um artista, como o Guignard, que fazia questão...

ainda hoje ou ontem, eu lia uma publicação aí, de um jornal ou uma revista qualquer: Grande mundo lírico do Brasil foi Minas Gerais, com Carlos Drumond de Andrade e Guignard; Minas Gerais foi uma passagem de Guignard, como tantas outras. Ele, apesar de ter vivido pouco em Friburgo, guardava a memória, a nostalgia e a autenticidade da sua terra, assim como cada um daqueles que conheceram mais de perto a sua própria terra...

Eu mesmo, um cearense, do pé da Serra da Ipiapaba, uma cidadezinha assim desse tamanho, chamada Ipueiras, cidade antiga, parada no tempo, mas eu guardo uma memória sagrada que conheço. Ela está presente e creio que Guignard da mesma forma... Aqui tenho até um documento disto: o maior afresco, talvez o maior afresco da pintura brasileira em extensão, da pintura de Guignard, foi o teto da casa da família de minha mulher, pintado por ele. Depois eu conto um pouco a história dessa pintura. Mas nesse afresco, que raramente eu me lembro de outros pintores que tenham feito isso: ele assinou o texto lírico, bonito, com uma cartela de um amarelo dourado, como está aqui, com uma estrela em cima; não sei que estrela é essa, não sei se é a estrela do PT!!!! (risos), mas deve ser a estrela do Guignard.

E na cartela escreveu: “Alberto da Veiga Guignard, de Nova Friburgo, que pintou. 1947” [exibindo um livro]. Já tinha saído de Friburgo, há quantos anos? De Nova Friburgo! Alberto da Veiga Guignard, de Nova Friburgo! Ou seja, ele tinha presente a terra de onde ele sai criança, com dez, 11 anos.

            A história da nossa relação familiar com Guignard se insere um pouco na própria biografia do artista, na sua história de artista e na sua história de ser humano, que incluía meu sogro, pai de Lea, que está aqui neste quadro [mostrando livro em que figura o quadro ‘A Gêmeas’, no qual está retratada sua esposa, Léa e a irmã dela, Maura], que é talvez o quadro brasileiro mais famoso e que mais repercute em todo o Exterior. Esse quadro tem sido exposto no Louvre, na França; no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, no Museu de Arte Moderna de Tóquio, e em museus do Mundo inteiro: Roma, Viena, Berlim, Itália e em toda a Europa... é um quadro muito viajado, esse quadro do Guignard e, realmente, é um quadro de uma beleza extraordinária.

            A história desse quadro e nossa relação familiar com Guignard desenha um pouco o perfil daquilo que era o Guignard. Meu sogro [então senador Barros de Carvalho] era um pernambucano. Das velhas famílias pernambucanas, antigas, cujo estilo de vida, durante muito tempo, fez a história de Pernambuco, dos senhores de engenho, grandes senhores, suas casas, palácios... pelo esplendor do açúcar e a decadência do açúcar... mas guardou, de certo modo, o estilo de vida daquelas velhas famílias pernambucanas e nordestinas em geral, que se transformaram – como várias que vieram morar no Rio, por necessidades políticas de sua terra, sendo Senador, várias vezes deputado e Ministro do Juscelino – num ponto de encontro. Em sua casa se reunia, todos os domingos, no famoso almoço dominical, um grupo grande de artistas, escritores, poetas, que estavam sempre presentes. Gilberto Freire, várias vezes, residiu temporadas nesta casa; o Manuel Bandeira; o Portinari era assíduo, às vezes certas épocas, quase diariamente, e assim por diante, tantos outros. O Murilo Mendes Campos, enfim... naquela mansão construída pelo risco de Lúcio Costa, como esse hotel encantador [o Park Hotel, em Nova Friburgo (RJ)], a casa nossa também era uma casa de Lúcio Costa.

            Um dia, o Portinari aparece lá em casa, puxando aquela perna dele; ele era capenga, figura humana extraordinária, que era o Portinari, com o irmão dele, (que todos nós, na família, chamávamos de ‘Tio Juca’. Não sei porque, pois ele se chamava Antonio Portinari, mas o nome na família era ´Tio Juca’). Ele e o Portinari, muito aflitos:

- Barros, há uma situação dramática aí. O nosso Guignard tá na rua!! Vai dormir em  baixo da ponte, não tem onde dormir, não tem dinheiro, não tem um tostão!!!!... (Guignard era um boêmio, inteiramente desprevenido, sem nenhuma noção das coisas materiais da vida, nunca teve, mesmo quando vendeu um quadro, no dia seguinte já tinha acabado...)

            Bom, “Vai dormir na ponte, não tem onde dormir!!!!”.

            - Mas o que é isso?! [dissera o sogro, Barros de Carvalho], traz o Guignard para cá.

            Naquele tempo, eram os bons, os velhos e bons tempos, e tinham casas grandes, e além da casa..., a casa tomava todo o lado de uma pequena rua, entre Águas Pedras e Laranjeiras, no Cosme Velho. O lado inteiro, o lado esquerdo da pequena rua, era todo de propriedade do senador Barros de Carvalho. Tinha sua mansão, tinha no meio do jardim uma casa para hóspedes. Ele recebia muitos amigos e era um luxo, que podia se dar. Mal se pode ter uma casa, mas ele tinha lá essa casa.

Então, ele disse: “vamos trazer o Guignard pra cá, para morar aqui”. A casa era pequena, dois quartos, banheiro, sala, terraço, beleza. Instalou-se, morou lá por uns dois anos, fazia suas refeições, praticamente todos os dias, na casa da família, na casa grande, sempre como uma pessoa da família e da casa.

            Um dia, ele disse: “Barros, eu quero fazer uma pintura aqui nesse teto”.

Era o teto da sala de jantar, com móveis antigos, coleção de móveis e obras de arte. Só Portinari, tinha 18 Portinari na casa e ele disse: “Vou pintar esse teto, aqui bonito. O que você quer que faça?”

Barros, pernambucano, nostálgico de sua terra, disse: “Guignard, pinte Olinda ! A cidade de Olinda, com o rio Beberí, passando por aí, os canaviais estão quase dentro da cidade”. Então, muito bem...

            Guignard nunca foi a Olinda!!!!, nunca viu um postal de Olinda, nunca viu uma fotografia de Olinda!!!... o único documento iconográfico no qual se guiou, ele [Barros] tinha um desses mapas antigos, mapa do XVII, século XVIII, como vocês conhecem, costumam indicar uma igrejinha aqui, um sobrado ali, uma arruado de casas, um engenho, canavial, essas coisas marcadas do mapa. E assim disse [o Barros]: “olha aqui tem um sobradinho, assim” e o Guignard pintou. Pintou apaixonadamente aquele teto!!!!, a tal ponto que é Olinda, a verdadeira Olinda, que está ali, perfeita!

Barros, quando terminou a pintura... o Gilberto Freire, que se hospedava sempre lá, havia chegado à véspera, com outro pernambucano antigo, o poeta João Cabral de Mello Neto, disse: “João, vem aqui, ver uma pintura que Guignard fez. Vem aqui amanhã”. Aí, o Gilberto chegou, os dois olharam e disseram; “É Olinda”!!!!.

Gilberto, inclusive, tem uma frase, está em qualquer parte da obra dele, que diz: “É o microcosmos da cidade onírica e lírica do Guignard”!!!

 Talvez tenha a atmosfera de Friburgo, naquela cidade tropical de Olinda, que ele fez. Uma cidade que ele imaginou e concebeu, como uma marca da cidade de Olinda. Esse era o Guignard que nós conhecemos.

            Depois, Guignard disse: “Barros, eu quero fazer um retrato
Na ocasião, os presentes também contaram com as palavra de sua
 esposa Léa, falando de sua emoção ao posar para o célebre
 quadro "As gêmeas", que segundo Gerardo, trata-se da obra
 brasileira mais famosa exposta no mundo, tendo percorrido
museus como o Pompidou (França) e o Moma (Estados Unidos)
entre outros. Na foto, Gerardo e Léa segurando o protótipo da
 estátua de Guignard.
dessas duas meninas". (as duas filhas dele, gêmeas, Léa e Maura). Naquela época, Barros tinha certa influência também no Ministério da Educação, onde era Ministro, o Capanema... e o Salão do Museu Nacional de Belas Artes... O Brasil, pelo menos tinha um Salão, de Belas Artes.

No Salão, era proibido expor pintura moderna, por regulamento. Só se permitia pintura acadêmica. A pintura da Escola de Belas Artes!!! Isto era um verdadeiro absurdo, o mundo inteiro já... a revolução do Mundo, modernizando-se, desde os anos 20, com uma pintura nova na França, das mais efervescentes, na Alemanha, na Rússia, em toda parte; o futurismo italiano, do qual nasceram praticamente todas as escolas modernas, pintores modernos... Então disse [Capanema]: “Barros, faça um regulamento do Salão!!!”. Feito o regulamento, Capanema aprovou e aí foi instituído o Salão de Artes Modernas, onde o Guignard conquistou, pela primeira vez, este salão entre os pintores novos.

            Pintou esse quadro, levou para expor no Salão; levou o quadro ainda praticamente escorrendo tinta, na última hora, em que se encerravam as inscrições, naquela tarde e o Guignard, afobado, acabou de pintar o quadro, levou, inscreveu o quadro e ganhou o prêmio mais importante, na época o maior  prêmio nacional de viagem à Europa, viagem ao Exterior; Guignard ganhou esse prêmio e o retrato ficou famoso.

            Aí se vê um pouco o aspecto..., a pintura do Guignard. Todos os críticos que se debruçaram sobre ela, chegam a uma só conclusão: Guignard não está inserido em nenhuma escola da arte moderna. Guignard não é surrealista, Guignard não é cubista, o Guignard escapou do expressionismo alemão para chegar ao um lirismo muito pessoal, mais parecido com o lirismo do Rosseau, do Duvallier, da França, do francês..., era um homem meio primitivo. Mas ele sabia profundamente desenho. Considerava o desenho a alma da pintura, podia fazer o que quisesse com o desenho. E foi professor de desenho. Desenhava, como lembra Frederico de Moraes, com um lápis escuro, que quase rasgava o papel. Desenhava, fazia seus desenhos, um desenho... Aliás, todos os grandes pintores – Portinari foi um grande desenhista – todos os grandes pintores modernos que a gente vê, as chamadas deformações da imagem, a metamorfose da figura humana, mas no fundo da alma da pintura, está o desenho puro, onde emerge suas cores e as sombras daquelas figuras fantasmagóricas, horrível, e sobretudo feio.

Como se olhasse a pessoa, está dentro dela, mas o desenho por onde ela entrou, e como rosto que nós vemos de cada um. E Guignard era um mestre do desenho. Aprendeu profundamente o desenho. Aprendeu tudo. Estudou na Suíça, na Itália, em Munique, onde ele andou, assim, margeando para o expressionismo alemão, que foi uma época de grandes pintores também, de grandes escritores, mas ele não se criou em nenhuma escola. A pintura dele é a apenas um momento lírico na história da pintura. De todos os outros artistas, o humanismo, o lírico, é Guignard, que ele expressou em seus quadros. Pintou tudo. Pintou retratos, pintou paisagem, fez auto-retrato, momentos imaginários, puramente oníricos, casarios, tudo quando se possa imaginar, passou pelo pincel mágico do Guignard, guardando qualquer cor, pictório, a alma lírica, que ele sabia por em todas as cores. E o sentimento humano...

Por exemplo, uma imagem desse sentimento humano, nos seus auto-retratos (e ele tem muitos auto-retratos), ele nunca omite o lábio leporino, que marcava a fisionomia dele Ele não tinha nenhum complexo. Mesmo com bigode, se vê o lábio leporino dele. Ele tinha a dicção muito prejudicada, os fonemas saiam fanhosos e altos, por causa do lábio leporino. A fala complicada.

            E ele pintou, várias vezes o rosto de Jesus Cristo e toda vez ele pintou Jesus com o lábio leporino, a coisa que ligava ele..., a pequenez e a grandeza do ser humano, que é capaz de sofrer essas coisas e passar por cima delas. O rosto de Jesus - como o de Deus -, com lábio leporino. Esse foi o grande Guignard.

Por outro lado, morreu pobre. Nunca cortejou o dinheiro, nunca fez questão de guardar dinheiro. Passou dificuldades a vida inteira. Bebia muito. Bebia bem. Também se embriagava, mas era refinado... ela [Léa] se lembra sempre. O velho Barros tinha o hábito, de dar almoços na mansão, se prestava muito para isso, a mansão, cheia de móveis, aparelhada com móveis antigos, talvez a maior coleção de móveis brasileiros (ele fazia questão... não tinha dinheiro para comprar Michelangelo, nem Rafael, nem para comprar a mobília do Luiz XIV, então comprava a brasileira, brasileiros antigos, de Pernambuco e Bahia. Jacarandá. Fundou o Clube do Jacarandá, com um grupo de historiadores brasileiros que cultivavam o jacarandá, como a memória do bom gosto e da qualidade do trabalho artesanal brasileiro. Madeira depredada, Jacarandá, hoje, não se encontra... muito difícil encontrar um pé de jacarandá. Nem na Bahia, que é a terra do jacarandá; no Espírito Santo, acabou. Móveis antigos. Então, ele gostava muito de exibir... o Assis Chateaubriand foi muito amigo dele, era um homem de vida social muito intensa, vida política intensa. Chateaubriand era um príncipe. Tinha as chaves de todas as portas do Brasil no seu tempo – o homem mais poderoso, o que seria hoje, o Dr Roberto Marinho. Chateaubriand, queria ser senador. Ele disse: “quero ser senador pela Paraíba”. O senador da Paraíba renunciou, o suplente renunciou, para fazer eleições de novo. Chatô disse: "quero ser senador pelo Maranhão", o senador renunciou... "quero ser embaixador em Londres..." Tinha a primeira televisão brasileira, uma rede de 36 estações de rádio e de 38 jornais diários de todo o País, uma fabulosa cadeia de jornais. Então, era um homem poderoso. Ele recebia, era o anfitrião do Brasil, de grandes grupos estrangeiros. Freqüentemente, ele dizia, assim: “Barros, faça um almoço aí para a Duquesa De La Roche do Couto. Eu quero que ela conheça uma casa brasileira, uma mesa brasileira. Prepara uma comida pernambucana aí”, e assim vai... Presidente do Banco da América...

O Guignard chegava: "Deixe-me preparar a mesa. Eu sei como se prepara a mesa". Ia lá dentro, escolhia as toalhas, uma coleção de toalhas, da França, compradas no Mercado das Pulgas, em Paris, fabulosas! Toalhas que tinham seis metros de cumprimento. Cobria qualquer mesa. Tinha muita coisa bonita. Cristais! O que puder se imaginar em cristais tinha lá, prataria fabulosa, pratos, aquelas coisas...

Então, o Guignard: "me deixa que eu sei arrumar uma mesa e distribuir o menu. Chama essas meninas da cozinha aí, que eu vou ensinar o menu e como serve o prato". Naquele tempo não se chamava garçom de fora, para servir. Era coisa brasileira, a gente da casa fazia o serviço e o Guignard preparava tudo: "Esse aqui é o copo de vinho branco, esse é de água, copo de vinho tinto. Copo de champanhe... Qual é a champanhe, Barros? Conforme a champanhe, usamos uma taça ou outra”. Sabia tudo! Sentava-se à mesa, era um príncipe! Uma coisa do lado humano, também isto... a vida foi feita para ser bem vivida e não só pa se viver torturado.

Foi um homem com profundo sentimento brasileiro. Outra coisa: eu creio que Guignard foi para Minas, ele dedicou-se muito a pintar todas as senhoras da sociedade mineira, ele ganhava um dinheirinho; um retrato da dona Berenice Magalhães Pinto, da dona fulana de tal, aquelas pessoas mineiras. Pintava o retrato, cobrava mal, não sabia cobrar. "Paga o que quiser!". Começou a fazer retratos com sobrados barrocos, sobrados mineiros, de Ouro Preto, ao fundo. Muita gente pensa que isso aqui [mostrando uma publicação com a obra 'As Gêmeas'] são casas de Ouro Preto, nesses retratos. São casas do Recife, são as casas do Recife Colonial. Mas ele pegou, nesses retratos, o gosto de reproduzir o casario colonial de Minas também, e daí partiu uma série de retratos de senhoras, de moças mineiras, com o casario colonial ao fundo, o que espelha muito bem a tranqüilidade, a doçura familiar que, geralmente, têm nos retratos.

            ... retratos, me lembro agora, eu tenho um filho, que é artista plástico, hoje muito conhecido em todo o Mundo, faz exposições em todo o Mundo, estava em Nova Iorque, no Museu de Arte Moderna, estava exposto lá, de passagem, este quadro do Guignard [‘As Gêmeas’] e o Tunga conhece aqueles artistas, lá de Nova Iorque, um sujeito disse: “engraçado, um grande pintor, pintou duas brasileiras, poderiam ser duas mulheres sensuais aqui, mas não, pintou duas moças tristonhas”. Ele então, disse: “não posso fazer nada, são minha mãe e minha tia”. [risos]

            Este foi o homem que saiu de Nova Friburgo, passou 20 anos, 20 ou 21 anos, na Europa, quando voltou, creio, só foi uma vez, depois disso, na Europa. Durante estadia na Europa, teve uma rápida viagem ao Brasil, em 1924, mas voltou logo e viveu na Itália, em Paris, na Alemanha, na Suíça. O pai do Guignard morreu, como todos aqui sabem, quando ele era criança ainda. A mãe dele, Nair Torres Veiga, a mãe, casou-se com um nobre alemão, parece que um nobre meio decadente, meio arruinado, do qual o Guignard sempre guardou a memória de um homem muito rígido, muito áspero, mas de todo modo conviveu com ele. Esse alemão matriculou o Guignard na escola, na Alemanha ou na Suíça, para o Guignard se diplomar, aprender, se formar em Agronomia e Zootecnia! Agora, imagina, o Guignard veterinário!

            Ele tinha um afeto familiar com todas as pessoas que encontrava, porque ele não tinha outros parentes, a não ser essas pessoas que encontrava. Esse é um pequeno retrato do grande pintor, que não cabe numa moldura medíocre, como a que eu posso fazer. Falando sobre molduras, ele tinha, freqüentemente, quase sempre ele pintava o quadro e pintava a moldura, mas podia ser também o interior de uma igreja de Ouro Preto, a moldura toda pintada; na casa, ele pintou esse teto, que ta lá guardado, preservado, já tentaram de várias maneiras tirar o teto da casa, mas nessa área do Rio em que ocupei cargos, fui Secretário de Cultura, eu tombei a casa. Ninguém poderá tocar nela mais.

            Mas já tentaram tirar e vender o teto. Eu mesmo fui procurado pelo Gilberto Chateaubriand, muito amigo nosso e tal, filho do Chateaubriand, grande colecionador de arte. E Gilberto chegou, disse Gerardo: “eu posso fazer a proposta que você quiser para a gente levar esse teto”.

Eu disse: oh Gilberto. Esse teto é pintado, diretamente no teto. Ele não pintou... é um afresco, diretamente no teto, como faziam os florentinos do renascimento, como um trabalho de Michelangelo, Leonardo Da Vinci, pintado no próprio teto... Ele disse: “olha, nós temos na Europa, tetos... tiram o teto, perfeito, igual, inteirinho. E a fortuna que estão dando...”. Eu disse não e tá lá o quadro.

            Ele [Guignard] pintou, por exemplo, o portão da casa. A casa tem um jardim na frente, um muro de pedra, na entrada e um portão grande. Ele pintou o portão, todinho, com florzinhas, uma beleza!

A família vendeu essa casa ao Duvivier (eu não sei se o Duvivier era de Friburgo?! Era aqui do Estado do Rio. Era um tirador de leite, famoso, homem rico). Eles tiraram o portão da casa. Lembro até, um dia eu fui lá fazer uma matéria sobre a casa; a TV Globo fez uma entrevista sobre a casa, mostrando a casa toda e disse: a casa, restam algumas coisas, mas tiraram... a casa está cheia de azulejos, do século XVII, do século XVIII, creio que azulejos do século XVI (são coisas muita raras, porque eram azulejos da Sé, na Bahia; foi demolida a Sé, e ele comprou, ele o Clemente Mariano, dos baianos, lá, o Guilherme Borbac, andaram comprando algumas coisas da Sé. Então, azulejos assinados, azulejos franceses). Eles, depois que compraram a casa, retiraram vários. Restam muitos azulejos típicos, mas no jardim, azulejos do século XVII..., os bancos todos de azulejos, hoje é uma casa... sombra do que era, ainda que sustentada em sua beleza, em sua sensibilidade, pelo painel do teto do Guignard, que sustenta a história, a tradição, a beleza e o sonho dessa casa, mas tiraram. Venderam, arrancaram, levaram não sei para onde, o portão dessa casa, pintado pelo Guignard. Arrancaram a porta...

Tinha uma porta, que era da Sé, na Bahia, que era o que há de mais antigo do Brasil, é de 1551. É tão velha como o Brasil. Mais velha que os tribunais. Arrancaram até a porta da Sé da Bahia. Depredaram a casa... Tem até a Idra Duvivier, que adoro, casada com Roberto Duvivier, um artista, minha amiga, grande amiga, está sempre lá em casa. A Idra ligou para mim, admirada, dizendo: “como você dá uma entrevista dessas. Parece até que somos um bando de bárbaros, de selvagens, depredando”. É verdade. “A casa é nossa, compramos a casa”. Mas eu disse: não tem ninguém contestando o direito comercial que vocês têm sobre a casa. Estou falando do direito sentimental, histórico e artístico. Ela disse: “aquela porta da Sé, da Bahia, está lá num sítio do meu irmão, em Jacarepaguá. Você quer comprar?” Quero, agora mesmo. “Quanto é que você dá?” Eu disse: eu não sei, eu não sou comerciante. Sou muito ruim para comércio.Eu não sei, mas eu compro. Quanto é que você quer?

Ficou naquela, quanto dá, quanto quer, quanto não dá... quando foi um dia, ela disse: “você dá duas passagens, ida e volta, para Boston, para meu filho, que vai estudar música, lá?”. Eu disse: Dou agora mesmo. "Então, já pode ir buscar lá”.

Telefonei para uma agência de viagem, com a qual, na época, eu trabalhava, que era do Banco Nacional, e disse: menina mande aí, agora dentro de meia hora, duas passagens de primeira classe, para Boston, ida e volta. Ela disse: “meia hora, não dá, doutor, mas dentro de hora e meia... entreguei as duas passagens a ela. Não soube nem o valor da porta. Você tem idéia do valor de uma porta, de 1551? Um documento da história do Brasil?

Há algum tempo um antiquário, desses aí, uma loja grande na Avenida Atlântica, naquele hotel, o Sofitel, onde foi o Cassino Atlântico, uma loja grande ali embaixo (...), um grande colecionador, soube da porta, telefonou, me procurou e disse: “o senhor tem aquela porta ainda? O senhor permite que eu leve ai um freguês, meu, um americano?” Pois, não. O americano chegou lá, olhou a porta, viu a porta, cheirou a porta e disse: “quanto é que o senhor quer?” Eu não quero nada, não estou vendendo “Mas eu quero comprar”. Eu não quero vender. “Mas diga o quanto o senhor quer. Abra a boca e diga o quanto quiser”. E ele insistindo, disse que tinha portas antigas também, da Califórnia, na casa dele, compradas não sei aonde: “Olha, vamos fazer um negócio: tenho um apartamento, aqui em Ipanema vago, apartamento que era de três quartos, hoje são dois, pois eu fiz uma sala maior. Dois quartos, sala, edifício bom. Te dou o apartamento por essa porta”. Meus filhos, se quiserem, vendam, mas eu não vou vender a porta, que está lá no meu modesto apartamento, na Rua Tonelero, esquina de República do Peru, um apartamento antigo, não tem nenhum luxo. A porta é até uma demasia ali dentro. Botei lá, mandei montar separando uma sala de outra e ficou bonito. Ela cabe lá e tem essas coisas todas lá.

            E pintou... Barros tinha uma coleção de 58/60 paliteiros de prata, paliteiros antigos, de prata portuguesa. Então isso ficava num armário, embutido na parede, encravado na própria parede, tinha uma moldura na parede e o Guignard pintou essa moldura todinha e essa tá lá também, na casa. Pintou uma mesa, numa salinha de almoço, e as cadeiras todinhas, e um banco grande. Pintou várias coisas. E naquilo ele esbanjava o lirismo dele e sempre com aquele lirismo extraordinário.

Por exemplo, o teto, este teto que está aqui [mostrando publicação], nós fizemos publicação, é um teto de Olinda, são nove trechos, pedaços. O teto é separado, tem uns barrotes, umas vigas, grossas, uma viga que não sustenta nada, é puramente ornamental. E o Barros disse: “isso não pode”,  e ele disse que pintava a  viga. As vigas estão todas pintadas como se fosse uma moldura de cada um dos trechos da visão de Olinda. E pintada com os motivos mais lindos, flores, sereia, com harmonia, com brasão heráldico, as coisas mais estranhas. Essa obra está intacta e ninguém pode mexer, porque está tombada. Como esse País é um País de loucos, pode ser que algum dia, um sujeito vai e ‘destomba’, é muito difícil. Tombado está tombado. Criou-se uma política de tombamento no Brasil, foi uma política iniciada... (as pessoas às vezes cometem uma injustiça)... Rodrigo Mello Franco, criador do Patrimônio Histórico e Artístico, realmente, no tempo do Capanema, que foi o verdadeiro Ministro da Cultura no Brasil, o Capanema. Então, o Rodrigo, fez isso, porque o Anísio Teixeira [educador] fez uma viagem a Pernambuco (o Anísio era Secretário de Educação da Bahia), onde o Gilberto Freire, era Chefe de Gabinete do Governador do Estado. E o Gilberto fundou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, com regulamento muito bonito. E o Anísio falou “isso é uma beleza, me dá uma cópia do regimento, que vou implantar na Bahia”.

            O Mário de Andrade, quando fez a famosa viagem dele ao Norte e Nordeste do Brasil todo, fez uma viagem completa, encontrou esse negócio com o Anísio, e o Anísio disse: “foi o Gilberto quem me deu”. Pediu uma cópia, o Gilberto deu e aí o Mário chegou ao Rio e deu ao Capanema, dizendo: “Você precisa fazer um negócio desse nacional”.

Tão logo, o Capanema chamou o Rodrigo, que foi um grande Presidente, sempre se cercou da melhor gente que havia no Brasil – arquitetos, pintores etc – e chamou toda essa gente, sobretudo o Lúcio Costa, e no rastro veio Oscar Niemeyer e toda aquela gente, toda. Então, a idéia seminal, idéia espermática [rindo], foi de Gilberto Freire... e o Patrimônio, hoje, é uma coisa muito importante. Tentaram desfigurar o Patrimônio, faz pouco tempo, mas resistiu-se e tal. Graças a ele, a memória nacional tem sido preservada em todo o País. Tombam-se os bens artísticos, bens históricos e bens naturais. Paisagens são tombadas, bosques são tombados, lagos, colinas etc. Tudo isso faz parte da histórica lírica do Brasil, história lírica da qual Guignard é um dos maiores protagonistas de todos os tempos. [aplausos]

 

Luiz Carlos: Antes de passar o microfone, aqueles que desejarem fazer algumas perguntas, queria principalmente destacar duas frentes de trabalho que vêm sendo realizadas aqui: a primeira, em que esperamos contar com o apoio dos moradores de Nova Friburgo e da região serrana, porque são pessoas que podem localizar documentos, fotografias, obras de Guignard, ou quem sabe, cartas, algum tipo de documento que pudessem, cada vez mais, mostrar isso que..., um pouco o Gerardo acabou de colocar, que na verdade a infância e os anos em que ele passou, a ligação dele com a terra natal, sempre foi muito forte. Ainda há pouco nós conversávamos sobre um livro, que existe sobre Guignard, e foi colocada uma carta, em que Guignard escreve ao Candido Portinari...

 

Orlando Brasil (escultor): Me sinto feliz e ansioso pela responsabilidade de representar a figura do Guignard. Eu tive muita dificuldade de conseguir informações e imagens. Eu fui surpreendido por não existir quase nenhuma publicação nas livrarias, nos sebos e tive que me basear nas poucas fotografias, que vi através de um livro que o Luiz Carlos [Prestes Filho] me emprestou. Então, eu vou pedir desculpas a vocês – mais uma vez – por não... por ter que ler aqui as idéias em que me baseei, embora eu não atingi, como nas obras de Guignard, a suntuosidade ou requinte sem fim, colocando-o um degrau acima de nós, em seu destaque discreto. Achei por bem representar o pintor, que nunca abandonou o desenho, considerando este uma atividade fundamental, como o Gerardo deixou claro pra gente também. Então, eu resolvi colocar o Guignard, não com um pincel, com um quadro, mas com uma prancheta e um lápis, o desenho. Isso pode se tornar uma curiosidade e alguma coisa que desperte o interesse ainda maior na figura do Guignard. Bom, eu não tenho muito mais para falar ... [aplausos]

            Bom... [mostrando o molde da estatueta] isso aqui é um primeiro estudo. Então, o Luiz Carlos me questionou, assim que eu cheguei, na questão dos óculos, que dão a impressão de cego. Mas como é apenas um primeiro estudo, fica muito difícil trabalhar detalhes muitos pequenos. Então, eu fiz, os óculos fechados e quando o trabalho for ampliado, ele ganha muito mais detalhes. O trabalho se enriquece muito mais. Bem, obrigado gente!

 

PERGUNTAS

 

Catherine Beltrão, do Arte na Rede: Gerardo, fico extremamente feliz que você esteja iniciando os módulos do Projeto Guignard de Nova Friburgo e gostaria de fazer uma pergunta, exatamente ligando o poeta que você é e o pintor que o Guignard é – a gente não pode dizer foi... – Você disse coisas tão bonitas..., cada vez que mencionava a pintura de Guignard... o que você sente em relação a isso? O que a pintura faz com o poeta?

 

Gerardo, em resposta: Bom, há uma... eu não sou crítico. Nem de literatura, nem de pintura, nem de arte nenhuma. Eu sou poeta, nada mais do que um poeta. Então, tenho a visão poética das coisas e há uma “lei”, famosa, que vem desde os gregos, dos latinos traduzidos, dos romanos, do latim puro, que diz: “ Urs Pictura et poesis”. A poesia é como a pintura. Porque a poesia é uma arte, que da à pintura a imagem, que é objeto da visão, da construção, de formas, de cores, imaginadas ou conhecidas de qualquer outro modo pelo artista, mas dá também uma atmosfera. O ar, a atmosfera, o ambiente em que aquela pintura está reproduzida. A poesia também... A poesia é feita sobre metáforas, ela não dá forma, as cores, ela está sempre nas metáforas. A atmosfera das coisas criadas.

De certo modo, é um pouco como aquela coisa da filosofia, que o Ortega resumiu numa palavra, muito simples, dizendo: ´O homem é o homem, em sua circunstância’. Não é nada mais, é a circunstância. A verdade é que cada um de nós, como a beleza de cada um de nós, faz parte de uma circunstância; do que está em redor de nós, dos seres, dos lugares e das pessoas. E na pintura do Guignard tem profundamente isso. Você pega qualquer... está a atmosfera, os seres..., estão junto aos lugares e as pessoas que tem a ver com ele, de qualquer maneira.

            Pintou a natureza, de uma maneira... formidável, extraordinária. Flores, pássaros, paisagens, folhas, árvores, aves... tudo está sempre como uma circunstância. É como a poesia, a poesia trata o homem e sua circunstância, sua atmosfera. Foi o que Guignard fez com os pincéis.

 

June Mastrangelo: Eu não terei, provavelmente, outra oportunidade, para perguntar: como foi o momento – talvez não ao senhor, mas à modelo [se referindo à Dona Léa] que momento foi aquele? Como ele se comportava? Se ele era exigente? Como foi ser modelo? Só a modelo que e o pintor conhece esse momento. E isso eu não vou encontrar ninguém para responder. E eu não posso perder essa oportunidade. Quem responde?

 

Dona Lea, respondeu com a ajuda de Gerardo: Conversava o tempo todo comigo... Ele gostava muito de anedotas. Ele era um homem muito feio. Contava as anedotas e tinha sempre uma coisa nova para contar. (...) De muito bom humor, ele agradava todo mundo... Falava com todo mundo, tinha sempre o que dizer e todo mundo gostava muito dele. Ele era importantíssimo. Todo mundo conhecia o Guignard, todo mundo. De fato que o retrato foi exposto, justamente...

 

Cláudio Verbicário: E a senhora, que idade tinha, naquela época, que ele pintou:

Dona Léa [sorrindo]: Posso dizer?

C. Verbicário: Naquela época, pode. Naquela época, pode!!! [Risos]

 

Confraternização entre participantes do Encontro
Luiz Carlos
: Nossa busca é uma busca para revalidar... As montanhas do Guignard, nos quadros de Guignard..., de fato, não sei se vocês concordam, muitas vezes, dizem que são somente as montanhas de Ouro Preto. Na verdade, nós vemos – do que você falou [dirigindo-se a Gerardo] – em torno dos quadros dele, traz muito das montanhas da região serrana do Rio de Janeiro, até porque ele passou aqui uns 10 anos de infância. Você traçou paralelos, da sua referência com Ipueiras, na cidade da sua infância, de onde você também saiu pequeno, e que você carrega isso dentro de você até hoje. Queria só, se você pudesse destacar, se esse momento de resgate do Guignard, de fato, é uma maneira também de resgatarmos a própria obra dele? O que a obra dele poderia representar para a cidade de Nova Friburgo, no sentido da auto-estima, no sentido de entendimento da sua própria história, no sentido de resgate de seus filhos mais novos. Quer dizer, a importância desse trabalho na perspectiva para promover o desenvolvimento econômico, social, educacional, histórico de toda uma região?

 

Gerardo: eu respondo essa pergunta, exatamente pelas referências das relações do Guignard com sua terra de origem, seu passado. Isso é uma coisa muito forte, para todos nós, até para mim, pessoalmente e as pessoas que estão aqui. Quando eu era menino, lia-se no curso Ginasial, uma Antologia..., tinha a Antologia Nacional, de Fausto Barreto e Carlos Laert, que era um negócio dessa grossura assim [fez gesto exemplificando]. Tão importante!  Hoje não tem mais nas escolas.

A maioria dos escritores, contemporâneos meus, todos nós, todos nós, tomamos o gosto pelas artes e pelas letras, com as leituras da Antologia Nacional, com  textos fundamentais da nossa língua. Me lembro que havia um texto, que hoje não me lembro mais de quem era, que falava do Homem e sua Terra de Origem e seu berço, em que dizia assim: até os animais selvagens, na floresta, quando sentem a morte aproximar-se, eles procuram uma vereda, um caminho na floresta, para ir buscar o lugar onde nasceram e ali morrerem. Não sei se isso é verdade, entre os animais.

Todo homem carrega consigo a infância. A infância é a coisa mais poderosa, que cada um de nós tem dentro de si. Cada um de nós é, hoje, um menino que foi. É na infância, onde aprendemos a pronunciar as primeiras palavras, aquelas com as quais aprendemos a nos comunicar com o mundo; com as quais criamos as imagens que trazem a expressão de nossa própria, nosso próprio espírito, nossa própria alma.

Então, a terra de origem é a terra da infância. Não adianta... por biografia pessoal, eu sou um sujeito andarilho, que viajava o mundo inteiro. Andei, pelo menos de tocar assim com os pés dois ou três dias, mais de cem países: toda América do Norte, o Centro, o Sul. Toda a Europa, toda a Ásia. A Ásia, que tem um reino que é menor do que essa mesa, fiquei dois dias lá. China, sudoeste asiático, Malásia, sei lá...

Mas, enfim, em todas elas, eu era sempre o menino de Ipueiras. Ali de calça curtas ainda. E talvez - não me tenha feito essa pergunta ainda - eu sonhava que um dia eu ia conhecer o Mundo, quando menino. E uma coisa muito anedótica na minha história: eu tenho uma pequena mala de viagem, e muito bonita, de couro, de avestruz. Deve ter sido feita na Austrália, sei lá. Quando era menino, lá em Carapebus, uma das cidades da minha infância, lá em Ipueiras... Em Crateús, de onde é a moça do hotel [referindo-se a Nívea Schimidt, do Park Hotel, onde ficou hospedado] tinha um sujeito chamado Zé Lins. Um dia ele fez uma viagem ao Exterior, aquilo foi uma pompa, e circunstância extraordinária. Zé Lins vai viajar para o Exterior! Ele foi ao Uruguai!!!! Então, ele trouxe do Uruguai, uma malinha com um rótulo do hotel em que ele esteve em Montevidéu. Ele andava com essa malinha, uma pastazinha, assim, uma malinha de mão... todo sábado e todo domingo, passeando pelo mercado com a mala, ostentando aquele rótulo. E eu sentia uma inveja. Que coisa fabulosa! Eu um dia vou ter uma mala dessas.

Um dia, estávamos... andando pela Ásia toda, estávamos em Bangcok, na Tailândia, no hotel. Era dia do meu aniversário. E ela [a esposa] saiu, comprou uma mala, e pregou na mala, os rótulos dos hotéis, todos, eu guardava os rótulos dos hotéis e de companhias de viagens, uma mala cheinha e disse: "olha aqui, agora você pode se 'desfroudizar'" [risos].

E eu me desfroudizei. Até essa volúpia ambulatória e da infância. Tudo que nós fazemos, está lá. A infância é para sempre. O poeta diz, "minha pátria é minha infância". [aplausos finais]