Quando o Artenarede ficou com a responsabilidade de registrar e divulgar os conteúdos gerados pelos diversos módulos do projeto "Guignard- filho de Nova Friburgo", sequer imaginou a riqueza e o manancial de sentimentos expostos que iria encontrar. O projeto está dando seus primeiros passos e já recolhe verdadeiras jóias em depoimentos e entrevistas. Um exemplo é esta entrevista dada a Ana Borges, publicada na Voz da Serra, caderno Light, em 28.09.2002.
*****
Gerardo Mello Mourão
O poeta em busca do nome de Deus
Gerardo Mello Mourão, 85 anos, cearense, é poeta, escritor e membro da Academia Brasileira de Filosofia. Participou do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura, foi professor de História e Cultura da América na Universidade Católica do Chile (1964-67), correspondente internacional da Folha de São Paulo em Pequim (China, de 1980 a 82) e articulista, no qual colaborou por cerca de 30 anos. Um de seus últimos livros, Invenção do Mar, foi considerado Os Lusíadas brasileiro pelo crítico Wilson Martins. Gerardo Mourão foi alfabetizado pela mãe e aos cinco anos lia correntemente. Ainda criança conheceu a obra de Gustavo Barroso - divulgador da obra dos cantadores nordestinos - e a coletânea de um de seus mais importantes discípulos, Luís da Câmara Cascudo. Através de clássicos da Antologia Nacional, de Fausto Barreto e Carlos de Laet, rendeu-se às letras aos dez anos de idade. Lia autores franceses aos 12 e, aos 13, traduzia autores latinos. Entre 14 e 16 anos, traduzia diariamente textos de Ovídio, Virgílio, Cícero e Homero. Amigo do pintor friburguense Guignard, o poeta esteve recentemente em Friburgo, para gravar depoimento sobre o pintor e fazer palestra na Academia de Letras, a convite do projeto "Guignard, filho de Nova Friburgo", uma iniciativa da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Nova Friburgo (Acianf), Artenarede e Estúdio F. Gerardo veio acompanhado da esposa, Léa, e do jornalista e cineasta Luiz Carlos Prestes Filho, idealizador do projeto. Entre gravações de programa, palestras e visita ao Sítio do Nêgo - onde conheceu Geraldo Simplício e se extasiou com a obra do artista -, o poeta concedeu a seguinte entrevista ao caderno Light.
 |
Gerardo e Lea, sua esposa, junto ao protótipo da escultura de Guignard. Foto de Regina Lobianco |
LIGHT - QUE DESCRIÇÃO O SENHOR FAZ DE SI MESMO?
Mourão - Sou católico, apostólico romano e acho que as pessoas de outras religiões têm as mesmas chances de salvação. Sou cearense há mais de quatrocentos anos. Tenho três filhos, o que acho muito importante, pois creio, como está no credo de Santo Atanásio, na ressurreição da carne. Amo as alegrias do corpo e da alma, mas estou afetado pela tristeza existencial do ser humano.
LIGHT - QUE TRISTEZA É ESSA?
Mourão - Acho que a maior desgraça que pode ocorrer ao ser humano é a desgraça de não ser santo. E eu não sou santo. Esta é a tristeza medular de minha vida. Nasci e fui criado para ser santo e manter intacta a imagem e semelhança de Deus. Tal qual a tinha no meu dia de nascimento, a 8 de janeiro de 1917, em Ipueiras, no Ceará, e na data de meu batismo, quatro dias depois, providenciado pelos cuidados pressurosos de minha mãe, que era uma pessoa dramaticamente religiosa.
LIGHT - COMO ERA IPUEIRAS QUANDO O SENHOR NASCEU?
Mourão - Nasci numa família antiga do norte do Ceará, fronteira com o Piauí, onde os Mello e Mourão predominam. Na minha terra, desde os mais abastados aos mendigos da feira, são todos parentes. Uma região pobre mas onde vivi cercado de amor e religio-sidade. Quando eu tinha três anos, meu único irmão morreu, aos oito anos de idade. Esta é a memória mais antiga que eu tenho.
LIGHT - COMO É ESTA LEMBRANÇA?
Mourão - Minha mãe era uma mulher dramática, profundamente religiosa. Meu irmão estava muito doente e sabia que ia morrer. Um dia minha mãe o pegou no colo, para que ele se despedisse da casa e dos objetos. E a família toda acompanhou a cerimônia do adeus. Diante de cada objeto, de um móvel ou determinado utensílio, meu irmão se despedia. À frente de uma bancada cheia de moringas de água, ele repetia, "adeus, potinhos, nunca mais vou beber da tua água...". Aquela cena, a despedida dele da vida, me marcou para sempre. Depois de sua morte, eu ficava sozinho sentado no batente da porta da casa, de ca-misola, esperando o padeiro chegar com o pão. Não tinha mais a companhia do meu irmão e ficava lembrando das nossas brincadeiras na rede. Eu só tinha três anos e a minha perplexidade era imensurável.
LIGHT - QUANDO O SENHOR SAIU DE IPUEIRAS?
Mourão - Vivi ali até os oito anos, quando fui mandado para Valença, no Estado do Rio, para estudar, onde viviam meus tios. Mas eu não queria sair de Ipueiras, minha terra querida, e essa viagem, além de tudo, era uma odisséia. Escapei de embarcar pela primeira vez porque me escondi debaixo de uma moita de mufumbo, na beira do rio, e fiquei esperando o trem passar. Na segunda vez, me escondi na igreja. Eu tinha lido num almanaque que, segundo uma lenda, na Idade Média, quem se refugiava na igreja, fosse criminoso ou não, não podia ser preso nem sequer retirado de lá. Quando ouvi o apito do trem, corri para a igreja, na esperança de que ali estava seguro.
LIGHT - E ESTAVA?
Mourão - Não estava. Meu avô, que é uma das memórias mais enternecidas da minha infância - um gigante, bravo e, ao mesmo tempo, uma doce figura -, entrou na igreja à minha procura. Ele me pegou, me abraçou e beijou ternamente, coisa rara num nordestino daquela cepa, e disse: "Meu filho, venha comigo. Você vai e eu prometo que depois vou buscar você". As lágrimas escorriam pelo rosto dele e aquela cena me impressionou, porque eu nunca o tinha visto naquele estado. Diante de tal manifestação, cedi e acreditei que ir para o Rio, estudar e ser padre era o meu destino.
LIGHT - O QUE ENCONTROU EM VALENÇA?
Mourão - Fui para um Seminário. O bispo de Valença era d. André de Arcoverde Albuquerque Cavalcante (nosso parente), sobrinho do cardeal Arcoverde, o primeiro cardeal do Rio de Janeiro e do Brasil. Eu passei a ajudá-lo nas missas e estava convicto de que queria ser padre. Até que apareceu por lá a Missão Redentorista dos Holandeses e eu fiquei muito entusiasmado com o trabalho deles. Saí do Seminário e fui para o Convento dos Redentoristas, em Congonhas do Campo, onde passei sete anos, fiz o novicia-do e tomei o "hábito".
LIGHT - QUANDO O SENHOR DESISTIU DA CARREIRA RELIGIOSA?
 |
"Desisti às vésperas de proferir os votos de castidade e obediência, restando-me o de pobreza, pelo resto da vida". Foto de Regina Lobianco |
Mourão - Para ser padre era preciso ter uma grande dose de heroísmo. Eu vivi num mosteiro, onde a vida era muito dura. Hoje há mais flexibilidade, mas em alguns mosteiros a vida continua muito difícil. Eu saí nas vésperas de proferir os três votos: de pobreza, castidade e obediência. Saí e imediatamente acabei com os votos de castidade e obediência. Restou-me o de pobreza, pelo resto da vida, mesmo sem o voto. Eu estava com 17 para 18 anos de idade. Portanto, foram dez anos dedicados exclusivamente aos estudos e a Deus.
LIGHT - DEPOIS, QUE RUMO O SENHOR TOMOU?
Mourão - Voltei para o Rio e resolvi procurar trabalho. Bagagem cultural não me faltava: eu tinha sete anos de estudos de latim, com três horas diárias. Eu posso conversar em latim assim como converso em português. Estudei grego, durante cinco anos, e igualmente leio em grego como leio em espanhol, francês, inglês e alemão. Graças a esse período, tive uma base humanística muito boa. Esse currículo me colocou dentro das melhores escolas do Rio, onde fui professor, por exemplo, do tradicional São Bento. Fui secretário de Estado, presidente da Autarquia Cultural do Rio de Janeiro, exerci funções no exterior e vivi mil aventuras.
LIGHT - SAIU DE IPUEIRAS E CONHECEU O MUNDO?
Mourão - Percorri a Ásia inteira, conheci toda a Europa, desde a Rússia, passando pela Península Ibérica até a Grécia. E todas as Américas. Ainda assim, não me esqueci de Ipueiras, e ainda na semana passada estive no Ceará. Minha mãe passava temporadas comigo no Rio, mas sempre dizia que estava de passagem. Ela repetia: "Quando morrer quero ser enterrada na minha terra, que eu não posso ser enterrada em terra estrangeira". No tempo antigo, no Ceará, todo morto era enterrado com uma mortalha, e minha mãe andava com a sua mortalha dentro da mala, numa espécie de ato franciscano.
LIGHT - TODAS ESTAS LEMBRANÇAS E MEMÓRIAS ESTÃO REGISTRADAS DE ALGUMA FORMA?
Mourão - Estão registradas de forma fragmentada, nas minhas poesias e em parte da minha obra. Tenho mais de vinte livros publicados e a minha história está espalhada neles. Não são livros populares, mas estão traduzidos em várias línguas, inclusive em grego e servo-croata. Mas eu não persigo a publicidade, eu persigo a glória, que é diferente.
LIGHT - E AGORA, O QUE O SENHOR TEM EM MENTE?
Mourão - Há uns cinco ou seis anos, eu comecei a escrever um livro, e parei, com umas 70 ou 80 páginas. Ando cismado. Acho que quando eu terminar este livro, eu morro. Então, estou enganando Deus. Mas agora, penso que está na hora de retomá-lo. É um livro sobre o nome de Deus. Qual é o nome d'Ele? Alguém sabe? Ele impôs um mandamento: "Não tomar o nome de Deus em vão". Então, os judeus, aterrorizados, evitavam pronunciar o Seu nome. E, com o tempo, o nome foi esquecido. Agora vou retomar esse tema e aguardar os acontecimentos.